Variabilidade Linguística e Mobilidade Social

O tema é tão amplo quanto instigante, seja para o leigo, seja para o especialista das áreas de Ciências Humanas e Ciências Sociais. Assim, iremos, neste trabalho de pesquisa, abordar alguns aspectos extremamente conhecidos, outros menos Não é qualquer país que tem o privilégio de reunir tamanha multiplicidade em níveis tão diferentes. Guardamos uma riqueza enorme e convivemos com uma biodiversidade invejável. Seja do ponto de vista geográfico, cultural ou climático, seja em muitos outros aspectos, a nação brasileira possui tal complexidade, que ainda nem a descreveu nem a conheceu em profundidade, tampouco fez uso de forma competente e conseqüente no âmbito da ciência e da tecnologia, da política e da A capitalização dessa potência de recursos ainda se encontra no aguardo de desdobramentos positivos no nível de uma política interna e externa para o país. Os brasileiros não usufruem de qualidade de vida satisfatória nem de imagem positiva no exterior em consonância com o que possuem. Contrariamente ao que deveria ter sido feito, nossa riqueza chegou a ser usada para construir sandices: o falar cantado e compassado de algumas regiões do Nordeste, para a impressão de alguns, explicar-se-ia pelo clima adverso, quente e pouco chuvoso daquelas localidades.

Na compreensão da necessária relação entre propriedades lingüísticas e parâmetros sociais fica implicado que ela se faz em duas direções: na direção da língua para a realidade social e na direção desta para a língua. Assim, de um lado, é possível entender-se que a língua (especialmente se tida como monolítica) pode sustentar a identidade de uma sociedade e frear sua fragmentação, mas, por outro lado, pode-se entender que a diversidade social há de configurar uma língua não monolítica, a serviço da diversidade, sem se estabelecer uma relação necessária com fragmentação.

Em meio a tanta riqueza, somos além do mais plurilingües, realidade bem diferente da que se propaga para a maioria dos brasileiros através de um discurso de um país supostamente monolingüe. Além do português, fala-se em nosso território cerca de 180 línguas indígenas,1 de comunidades étnico-culturalmente diferenciadas, afora as populações bilingües que dominam igualmente o português e línguas do grupo 1 ARYON DALL?IGNA RODRIGUES, Línguas Indígenas: 500 anos de Descobertas e Perdas, p.103. românico, anglo-germânico e orientais-eslavas, como em comunidades multilingües português/italiano, português/espanhol, português/alemão, português/japonês.

Em princípio, poderíamos pensar que o multilingüismo traz problemas que as comunidades monolingües não oferecem. De um prisma estritamente prático, as dificuldades de comunicação dentro de um país plurilingüe podem atingir o comércio, a indústria e provocar descontinuidades sociais. Nessa visão, o multilingüismo estaria em permanente conflito com o nacionalismo e na contramão de um desenvolvimento harmônico e de um crescimento uniforme de toda a sociedade.

Uma das primeiras barreiras seria a educação, permanentemente em conflito entre o nacionalismo e a manutenção de identidades sócio-culturais de comunidades minoritárias. Sabemos já que a melhor estratégia, nesses casos, é implantar um sistema total e amplamente bilíngüe, diretriz filosófica norteadora da política de educação escolar indígena no Brasil.

Se é verdade que o multilingüismo constitui problemas, seria o caso de se pensar que os países monolingües são melhores economicamente que os multilingües? Para provar isto, precisaríamos de métodos para medir o grau de diversidade lingüística e o grau de sucesso e insucesso econômico, de modo a estabelecer uma correlação, por exemplo, entre grau alto de multilingüismo e nível econômico baixo.

Investigações dessa natureza foram tentadas por alguns autores sem sucesso, embora se possa admitir que exista uma tensão permanente e não casual entre uniformidade lingüística e desenvolvimento econômico. Com efeito, é razoável afirmar- se que o conflito entre identidade grupal e nacionalismo contribui para uma sociedade mais dinâmica e que uma multiplicidade de estilos de vida e de visões de mundo imprime situação estimulante. Em contexto desse tipo, o ideal corresponderia à existência de uma nação multiétnica com grupos sócio-culturais conscientes da cultura e identidade lingüísticas locais e imbuídos de sua inserção nacional.

Impõe-se como realidade no Brasil que assim se estabeleçam as relações dos grupos comunitários com a nacionalidade brasileira em toda a sua plenitude.

Portanto, o desenvolvimento de base discriminatória e defende-se a implantação e permanência de atitude que busca a equivalência de status social das línguas e de suas variedades.

Em nosso país registram-se marcadores regionais predominantes em comunidades facilmente identificadas geograficamente, em simultaneidade a indicadores de estratificação estilístico-social. As formas em variação projetam-se num contínuo em que se podem descrever tendências de uso lingüístico de comunidades de fala caracterizadas diferentemente quanto ao perfil sociolingüístico. As variáveis não agem isoladamente mas como um conjunto complexo de condicionamentos que inibem ou favorecem o emprego de formas variantes equivalentes semanticamente. Em geral, por exemplo, agentes como escolarização alta, contato com a escrita, meios de comunicação de massa, nível sócio-econômico alto, origem social alta concorrem para o aumento na fala e na escrita da variedade standard, admitindo-se que existam pelo menos o padrão popular e culto.

O universo de falantes do Português Brasileiro é, via de regra, sociolingüisticamente heterogêneo, composto por indivíduos de classe social e de nível sócio-cultural diferenciados. Por isso, as diferentes variedades standard e não standard podem apresentar-se mais ou menos marcadas e, em geral, distribuídas num continuum. Até o ingresso na escola, o nativo de português possui domínio completo do padrão coloquial da língua e é no processo de letramento que passa a incorporar o padrão culto, os estilos e gêneros formais na fala e na escrita. Sem a ação da educação formal, o falante tende a manter tão somente o padrão vernacular, de modo que deixá-lo de fora do processo de sistematização dos saberes letrados pode excluí-lo socialmente, alijando-o e condenando-o a permanecer estagnado na escala social. Torna-se, assim, imperioso inserir o indivíduo no mercado em que a língua tem boa cotação, de forma que ele passe a fazer uso pleno da língua de cultura. O letramento supõe a incorporação dos conhecimentos de ler e escrever no contexto social, visão portanto mais abrangente do processo em que inúmeros fatores são co-responsáveis.

Do ponto de vista científico, sabemos ser legítima toda e qualquer manifestação de língua desde que cumpridas as necessidades de intercomunicação.

Contudo, ao considerar-se a adequação dos usos da língua aos inúmeros atos de fala e estilos exigidos por situações contextuais reais de interação lingüística, surge a necessidade de os falantes se apropriarem plenamente de suas potencialidades lingüísticas, sob pena de se restringirem a ?espaços comunicativos? limitados e a serem condenados à imobilidade social. Cumpre à pesquisa lingüística contribuir no sentido de oferecer novas alternativas quanto a estratégias facilitadoras de ensino/aprendizagem de atividades discursivas apropriadas.

Advogo a favor da tese segundo a qual o eixo certo/errado, implementado e preferencialmente adotado historicamente como prática pedagógica no ensino sistemático de estruturas lingüísticas de variedades prestigiadas, contribui na verdade para reforçar as diferenças sociolingüísticas, prestando-se aos interesses de ideologia dominante que prioriza a exclusão social. Tenho como meta demonstrar que é possível promover uma quebra no sistema vigente, com base nos princípios imanentes dos usos lingüísticos reais, com o lema "rota da fala para a escrita versus o certo/errado".

Acreditamos que essa deve ser uma das formas de, ao facilitar o acesso aos saberes letrados, assumir-se uma posição mais democrática, já que todos os falantes deveriam chegar a dominar a língua padrão ainda que não venham a usá-la.

Se há dúvidas quanto a alguns dos indicadores aqui mencionados como identificadores e determinadores de status social, há outros sobre os quais há consenso absoluto e já é de senso comum. A fome, condições sub-humanas no que se refere à habitação, saúde, à educação são barreiras intransponíveis e constituem impedimentos aos indivíduos à cidadania plena. Sabemos que o Brasil convive com esses agentes em diferentes graus a depender da localidade em nosso território.

Mesmos que os indicadores sociais (Censo) apresentem-se mais positivos, no entanto a concentração populacional nos grandes centros urbanos tem concorrido para que um grande universo de pessoas mantenha-se na linha da miséria, embora os índices apontem melhoria para os brasileiros quanto à expectativa de vida, renda, saúde e escolaridade. Contudo, isso não tem sido suficiente para promover distribuição mais justa de riqueza no País, para diminuir a violência e a mortalidade infantil, para melhorar a qualidade de nosso ensino.

Janiara de Lima Medeiros (Jani Medeiros)
Professora universitária
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